Retorno ao quarto antes das 15 horas e a enfermeira, atenciosa, observa que a noite estará boa para se dormir. O vento batia forte e a abertura da janela precisou ser reduzida.
Tento dormir, mas portas batem a cada cinco minutos, por força do vento ou de pessoas que não se preocupam com o silêncio imprescindível a um ambiente hospitalar. De repente, uma voz em altos decibéis: “João, estão chegando mais dois pacientes”. O aviso foi de uma enfermeira que preferiu acordar todos os quartos a ter que andar 20 metros para falar só ao João.
Duas bandejas de janta são colocadas sobre a mesa e, agora, ofereço-a à esposa do paciente, que acabara de chegar para substituir a cunhada.
– O senhor não vai comer?
– Não, senhora, eu já vou para casa.
– Mas não vai dormir aqui? A sua cirurgia não foi hoje?
– Sim, mas foi simples e não preciso ficar hospitalizado.
– Posso lhe fazer uma pergunta?
– Claro.
– Se foi uma cirurgia simples por que precisou ficar no quarto? Há tanta gente lá embaixo na fila esperando internação!
Calo-me. Não sei explicar. Na verdade, eu estava nesse hospital porque era o único a dispor de equipamento necessário à cirurgia e que o atendimento só poderia ser pelo SUS. Aplausível a medida de reservar os hospitais públicos aos pacientes do SUS.
O Hospital Celso Ramos tem uma boa estrutura, apesar de alguns setores estarem sucateados, e conta com uma equipe de funcionários, enfermeiros e médicos dispostos, mas há um grave problema: gestão ineficiente, corporativa e improdutiva. Sente-se em toda a instituição a ausência de conceito de hospital, organicidade e de autoridade. Parece existir uma conivência generalizada com os erros; aparenta-se uma epidemia de desordem. É preciso profissionalizar os hospitais, acabando-se com cargos comissionados e instituindo-se uma política de pessoal para valorizar a competência e a qualidade.
Em 1976, o então governador Antônio Carlos Konder Reis enfrentava sérios problemas na maioria dos hospitais de Santa Catarina e logo identificou a causa: má gestão. Convocou um grupo de freiras para assumir várias unidades. A qualidade da gestão pode não ter sido ótima, mas o governo resgatou a autoridade em cada um dos hospitais. E a velha e surrada pergunta continua: o médico deve administrar hospital?

